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De 20 comprimidos a um: como a dose única contra o HIV mudou minha vida

Ativista que vive com HIV há 27 anos narra a evolução do tratamento antirretroviral e os desafios que ainda persistem

O Brasil, pioneiro no combate ao HIV/Aids, avança com a terapia dupla de dose única, agora disponível no SUS para maiores de 35 anos. Essa simplificação do tratamento melhora a adesão, reduz efeitos adversos e aumenta as chances de carga viral indetectável (I=I). Desafios como vulnerabilidade social e estigma ainda persistem.

O Brasil tem uma história linda de luta e sucesso no enfrentamento ao HIV, vírus causador da aids. Lá nos anos 90, quando o país começou a oferecer medicamentos gratuitamente, o mundo parou para nos aplaudir.

De lá para cá, garantimos o tratamento universal e o HIV deixou de ser visto como uma sentença para se tornar uma condição de saúde que pode ser controlada. Eu mesmo vivo com HIV há 27 anos, e essa evolução mudou a minha vida e a de milhares de pessoas.

Eu me lembro bem: no começo, o tratamento era um coquetel de uns 20 comprimidos por dia! Era um malabarismo para tomar tudo, fora os efeitos colaterais que vinham junto.

A gente comemora muito cada avanço na terapia antirretroviral (TARV). O passo mais recente – e um dos mais significativos – é a ampliação do acesso à terapia dupla de dose única, que agora está sendo oferecido a partir dos 35 anos pelo SUS.

Para quem vive em vulnerabilidade, seguir o tratamento pode ser complicado. Simplificar a rotina das medicações pode ajudar algumas pessoas a manter a adesão.

Além disso, a utilização de um menor número de medicamentos está associada a uma redução do risco de eventos adversos relacionados às interações com outros medicamentos. Algo fundamental, pois nós, pessoas que vivem com HIV, tendemos a envelhecer mais rápido e a ter mais problemas de saúde (comorbidades), por isso é importante discutir com o profissional de saúde a melhor opção terapêutica para cada caso.

Com mais opções de tratamento, as chances de a gente chegar à carga viral indetectável é muito maior. E isso, para mim, é o que há de mais importante: se estamos indetectáveis, o vírus se torna intransmissível por via sexual (I=I). É a meta da saúde pública, e é a nossa liberdade.

Mas, a nossa jornada está longe de acabar! O desafio de combater a aids vai muito além dos avanços da medicina. O que a gente vê no dia a dia é que a vulnerabilidade social extrema atinge quem mais precisa de cuidado. No Ceará, onde eu atuo, boa parte das pessoas diagnosticadas vivem em situação muito difícil.

Sabe aquela história de ter que tomar o remédio? A gente sabe que é importante, mas quem está com fome, quer comer, e não tomar remédio de estômago vazio. É por isso que ações como a entrega de cestas básicas, feita em parceria com os serviços de saúde para monitorar a adesão, são tão essenciais.

Não é só caridade; é um elo entre a sobrevivência e o cuidado. Garantir que alguém possa tomar seu comprimido de barriga cheia é, antes de tudo, uma questão de dignidade e direito humanos.

E o que falar do estigma e do preconceito? Eles continuam sendo barreiras silenciosas, mas fortíssimas. O medo da discriminação no trabalho, na família e no círculo de amigos muitas vezes leva ao abandono do tratamento, especialmente nas regiões mais marginalizadas. É uma pressão invisível que machuca, isola e adoece.

A chegada da terapia dupla de dose única para quem tem 35 anos ou mais amplia o acesso potencial ao tratamento. Hoje, temos cerca de 850 mil pessoas em tratamento antirretroviral no Brasil, e mais de 200 mil já usam essa opção de dose única. O Ministério da Saúde constantemente lança novas Notas Técnicas que buscam ampliar o acesso e melhorar a qualidade da atenção à saúde das pessoas que vivem com HIV.

O recado que a gente precisa dar é claro: essa não é só uma questão clínica. É uma questão de direitos humanos, de enfrentamento à desigualdade, de combate à fome e ao estigma. A dose única pode simplificar a rotina de tratamento e contribuir para melhorar a qualidade de vida de pessoas que vivem com HIV.

*Vando Oliveira é coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+ Brasil) no Ceará, e vive com HIV há 27 anos.

 

Fonte:  Veja Saúde

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