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Do que falaram no maior congresso de aids do mundo

12/09/2018 as 01:44:11

Os congressos mundiais de aids, que são realizados a cada dois anos, têm algo que os torna diferentes de qualquer outra conferência médica: além de apresentar os avanços recentes na ciência sobre o HIV, eles contam com um componente social que atrai boa parte da atenção. Porque nessa doença, a estigmatização, as leis, a discriminação e as decisões políticas são quase tão importantes quanto às investigações para acabar com ela.

O encontro de Amsterdã, que terminou no dia 27 de julho, após uma semana de sessões, abarcou mais conversas em torno dessas questões do que assuntos puramente científicos. Este, é um resumo dos destaques discutidos no Aids 2018.

Os objetivos não estão sendo alcançados e falta dinheiro

Poucos disseram isso claramente. A frase mais repetida foi que “não estamos no caminho certo”. Mas a comunidade científica assumiu que é praticamente impossível alcançar o objetivo que a comunidade internacional estabeleceu para 2020. É o chamado 90-90-90: em que 90% dos portadores conheçam sua condição, 90% esteja em tratamento, e destes, que 90% tenha carga viral indetectável. Essa dificuldade se deve, em grande parte, à falta de fundos, que diminuíram nos últimos cinco anos. Se as contribuições dos doadores não aumentarem, “as conquistas das últimas duas décadas podem acabar em nada”, segundo Linda-Gail Bekker, presidente da International Aids Society (IAS, na sigla em inglês, organizadora do congresso).

Novos tratamentos, prevenção e cura

Pouco se avançou na busca de uma cura, algo que elimina completamente o vírus do organismo do soropositivo. Mas os tratamentos antirretrovirais, que conseguem reduzir a carga viral a níveis indetectáveis ​​no sangue e, portanto, evitam a transmissão, têm novidades. O dolutegravir é um dos mais novos fármacos e tem muito menos efeitos colaterais do que os anteriores, além de poder ser usado em pessoas que desenvolveram resistência a outros medicamentos. Várias ONGs pediram que este antirretroviral chegue o quanto antes nas comunidades com menos recursos. Em relação à prevenção, estudos que continuam a analisar a PrEP, medicamento profilático que impede a transmissão do vírus se tomado antes, seguem acumulando evidências positivas.

Protagonismo da juventude

Esta conferência teve mais presença de menores de 30 anos do que qualquer outra na história. Uma geração que continua lutando contra o estigma foi protagonista de boa parte do congresso. Não por acaso, como aponta a Unicef, os adolescentes são o grupo mais afetado pela epidemia.

Contra a criminalização da doença

Um consenso que começou entre os 20 principais pesquisadores de HIV do mundo se disseminou entre dezenas de outros profissionais da área durante a conferência. Eles pedem aos governos para não criminalizarem comportamentos como ocultação da sorologia. Mais de 70 países têm leis específicas nesse sentido que, em vez de impedir a disseminação do HIV, o estimulam, de acordo com as evidências disponíveis.

Europa Oriental e Ásia Central

Se o olhar foi direcionado para uma região no mundo nesta conferência, este lugar foi a Europa Oriental e Ásia Central, em grande parte responsável pelo fato de que os objetivos não estão sendo alcançados. Lá, a epidemia continua a ser desencadeada pela disseminação do vírus entre os toxicodependentes que se injetam. Os cientistas pedem aos seus governos que tomem medidas que dependem mais da vontade política do que do orçamento.

Redução de danos

Para evitar a propagação do vírus entre usuários de drogas, as políticas destinadas a substituir a heroína por metadona e a distribuição de seringas seguras são fundamentais. A ONG Harm Reduction International assegura que o financiamento para medidas como esta é apenas de 13% em relação ao que seria necessário para fornecer uma boa cobertura.

Indetectável = Intransmissível

Já se sabia: se a carga viral é indetectável no sangue, algo que geralmente é alcançado com o tratamento antirretroviral, não há possibilidade de transmissão. Não é improvável, é impossível. Um novo estudo com mais de 70.000 pessoas o ratificou. O lema I = I (Indetectável = Intransmissível) tem sido um dos mais defendidos por ativistas e cientistas.

*Pablo Linde é jornalista e editor do caderno Planeta Futuro do El País, jornal diário espanhol fundado em 1976 que conta com uma média de 457 mil exemplares por dia. Sediado em Madri, é um veículo sócio-democrata conhecido pelo grande destaque de suas informações internacionais e por ser um dos jornais mais relevantes do mundo.

** Texto publicado originalmente no (Planeta Futuro): De qué se ha hablado en el congreso de sida más grande del mundo, em julho de 2018.

*** A Agência de Notícias da Aids visitou a sede do jornal El País em julho de 2018. A publicação deste artigo é o início de uma parceria de conteúdo estabelecida entre o El País e a Agência Aids.

Agencia Aids

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