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Prevenção em movimento: prevenção combinada, novas tecnologias e prevenção positiva
Palestra promovida durante a capacitação da RNP+ Ceará destacou os avanços da prevenção combinada, o acesso às novas tecnologias de prevenção e a importância das pessoas vivendo com HIV/AIDS na construção das políticas públicas de saúde.

A prevenção ao HIV/AIDS está em constante transformação. Novas tecnologias, ampliação do acesso aos serviços de saúde e, principalmente, o reconhecimento dos direitos e do protagonismo das pessoas vivendo com HIV e/ou aids (PVHA) são elementos fundamentais para fortalecer a resposta à epidemia no Brasil.
Esse foi o eixo central da palestra “Prevenção em Movimento: Prevenção Combinada, Novas Tecnologias e Prevenção PositHIVa”, ministrada pelo farmacêutico Álisson França, consultor técnico da Coordenação-Geral de Vigilância do HIV/Aids, vinculada ao Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI), do Ministério da Saúde.
A atividade integrou a programação da capacitação de 28 novos ativistas promovida pela RNP+ Ceará, em Fortaleza, no dia 5 de novembro de 2026, de 08:30 às 12:30 .
Prevenção combinada: cada pessoa constrói sua própria estratégia
Um dos principais pontos abordados foi o conceito de prevenção combinada, que reúne diferentes estratégias de proteção, escolhidas de acordo com as necessidades, o contexto e o momento de vida de cada pessoa.
A abordagem contempla três dimensões: biomédica, comportamental e estrutural.

Na dimensão biomédica estão ferramentas como preservativos, gel lubrificante, Profilaxia Pré-Exposição
(PrEP), Profilaxia Pós-Exposição (PEP), testagem, tratamento do HIV e vacinas. Já a dimensão comportamental envolve informação, acolhimento, aconselhamento, redução de danos e educação entre pares.
A dimensão estrutural, por sua vez, chama atenção para a necessidade de enfrentar fatores que ampliam a vulnerabilidade ao HIV, como racismo, LGBTfobia, machismo, estigma e discriminação.
A mensagem central é que não existe uma estratégia única de prevenção que sirva para todas as pessoas. Cada indivíduo deve ter autonomia para construir sua própria combinação de métodos, com
acesso à informação, aos serviços de saúde e aos seus direitos.
Novas tecnologias ampliam as possibilidades de prevenção
A palestra também apresentou as ferramentas de prevenção já incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) e as tecnologias que estão em processo de avaliação e desenvolvimento.
Entre as estratégias disponíveis estão a PrEP oral, utilizada diariamente ou sob demanda, a PEP, que deve ser iniciada em até 72 horas após uma possível exposição ao HIV, e o autoteste, que amplia as possibilidades de acesso à testagem.
Outro destaque foi a DoxiPEP, estratégia que utiliza a doxiciclina após a relação sexual para prevenir determinadas infecções sexualmente transmissíveis, especialmente sífilis e clamídia. A tecnologia foi incorporada ao SUS em 2026, com oferta ainda em processo de implantação, conforme apresentado na palestra.
O palestrante também abordou o desenvolvimento de novas tecnologias, como o cabotegravir injetável, com aplicação a cada dois meses, e o lenacapavir injetável, com possibilidade de aplicação semestral. O alimatravir (MK-8527), medicamento em pesquisa para uso mensal, também foi apresentado como uma alternativa em desenvolvimento.
Apesar dos avanços científicos, foi ressaltado que o acesso às novas tecnologias ainda enfrenta desafios, especialmente relacionados aos preços, às negociações com fabricantes e às decisões de incorporação ao SUS.
Nesse cenário, a participação dos movimentos sociais e a incidência política são fundamentais para que as inovações cheguem efetivamente à população.
Indetectável é igual a intransmissível: informação que combate o estigma
Um dos pontos mais importantes da apresentação foi o reforço do conceito I=I=0: Indetectável = Intransmissível = risco zero de transmissão sexual do HIV.
Isso significa que uma pessoa vivendo com HIV que está em tratamento e mantém a carga viral indetectável, abaixo de 200 cópias por mililitro, não transmite o HIV por via sexual.
A informação representa uma conquista científica e social, pois contribui para combater o preconceito, a desinformação e as situações de discriminação enfrentadas pelas pessoas vivendo com HIV/AIDS.
O palestrante também destacou que a indetectabilidade não elimina a importância de outras estratégias de cuidado, como a prevenção de outras infecções sexualmente transmissíveis, a vacinação e o acompanhamento regular dos serviços de saúde.
Prevenção PositHIVa: pessoas vivendo com HIV/AIDS no centro das decisões
Outro eixo fundamental da palestra foi a Prevenção PositHIVa, conceito construído a partir da participação das próprias pessoas vivendo com HIV e/ou aids.
A abordagem ganhou destaque no Brasil em outubro de 2007, quando a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) promoveu o seminário “Prevenção Posithiva: estado da arte”, reunindo representantes do governo, da academia e do ativismo.
A proposta rompe com uma visão restrita de prevenção, que historicamente colocava as pessoas vivendo com HIV/AIDS apenas na posição de responsáveis por evitar a transmissão do vírus.
Em uma perspectiva ampliada, a prevenção deve garantir saúde integral, qualidade de vida, sexualidade, prazer, afetos, direitos reprodutivos, possibilidade de constituir família e participação nas decisões que afetam essa população.
Isso inclui manter o tratamento em dia, cuidar da saúde mental, realizar exames preventivos, tratar outras infecções, atualizar a vacinação e ter acesso a serviços de saúde livres de preconceito.
Como ressaltado na apresentação, a Prevenção PositHIVa não significa vigiar as PVHA, mas garantir saúde, direitos e protagonismo.
Direitos humanos e combate à discriminação
A garantia de direitos também recebeu atenção especial durante a atividade.
Entre os pontos destacados estão o direito ao sigilo sobre o diagnóstico, assegurado pela Lei nº 14.289/2022, e a criminalização da discriminação contra pessoas vivendo com HIV, prevista na Lei nº 12.984/2014.
A palestra reforçou ainda que viver a sexualidade, desejar, construir relacionamentos e planejar a maternidade ou a paternidade são direitos, e não concessões.
A responsabilidade pela prevenção deve ser compartilhada, não podendo ser atribuída exclusivamente às PVHA..
Ativismo e participação social fortalecem a resposta ao HIV
A participação da sociedade civil na construção e no acompanhamento das políticas públicas foi outro tema de destaque.
Os ativistas podem atuar em diferentes espaços de controle social, como conselhos e conferências de saúde,
consultas públicas da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), além de comissões e espaços de diálogo entre governo e movimentos sociais.
Na prática, o ativismo também se manifesta por meio da disseminação de informações confiáveis, do acolhimento de pessoas recém-diagnosticadas, da defesa do sigilo, da cobrança por atendimento adequado e da denúncia de violações de direitos.
A apresentação destacou que, diante de uma situação de discriminação ou de um direito negado, é possível procurar a gerência do serviço de saúde, a Ouvidoria do SUS, pelo Disque Saúde 136, os conselhos de saúde, as coordenações de IST/Aids, a Defensoria Pública e o Ministério Público.
A orientação é registrar as ocorrências, anotando data, local, identificação do serviço e descrição do que aconteceu.
Jovens precisam estar no centro da resposta ao HIV/AIDS
A juventude também foi apontada como um público estratégico para as políticas de prevenção.
Dados apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que 40,6% dos novos diagnósticos de HIV registrados em 2024 ocorreram entre pessoas de 20 a 29 anos.
A apresentação também chamou atenção para os desafios relacionados à continuidade do uso da PrEP entre jovens de 18 a 24 anos, grupo que apresenta maior possibilidade de utilização intermitente e interrupção da profilaxia.
Nesse contexto, ampliar o acesso à informação, oferecer acolhimento sem julgamentos e desenvolver estratégias de prevenção construídas com a participação dos jovens são medidas essenciais.
Formação que transforma informação em ação
Além da exposição dos conteúdos, a atividade contou com dinâmicas participativas para estimular a reflexão e preparar os novos ativistas para situações concretas do cotidiano. No vídeo acima, simulação de uma consulta médica discriminatória e reação da cliente.
Os participantes foram convidados a discutir afirmações sobre prevenção, identificar mitos e verdades, construir combinações de estratégias para diferentes personagens e elaborar respostas diante de situações de violação de direitos.
Na etapa final, cada pessoa foi estimulada a identificar o que aprendeu e assumir um compromisso de ação em seu território.
A proposta foi aproximar o conhecimento técnico da realidade vivenciada pelas PVHA, fortalecendo a capacidade de mobilização, acolhimento e incidência política dos participantes.
Protagonismo é parte da solução
Ao longo da palestra, três mensagens sintetizaram os principais aprendizados: indetectável é igual a intransmissível, prevenção é escolha e direito, não uma receita pronta, e as PVHA são parte fundamental da solução.
Mais do que apresentar novas tecnologias e informações científicas, a atividade reafirmou que a resposta ao HIV precisa ser construída com participação social, respeito à diversidade, garantia de direitos e enfrentamento permanente do estigma.
Afinal, não basta ampliar o acesso aos medicamentos e às tecnologias de prevenção. É necessário garantir que todas as pessoas possam viver com dignidade, autonomia, liberdade e sem discriminação.
O protagonismo das PVHA não é apenas uma conquista do movimento social. É uma condição indispensável para construir políticas públicas mais humanas, inclusivas e efetivas.
Projeto da RNP+ Ceará
Apoio: Unaids| Dathi
Matéria e publicação: Vanessa Campos (@soroposidhiva)




