
As marcas deixadas pelo preconceito foram tão presentes quanto as discussões sobre prevenção e tratamento durante a roda de conversa promovida pela RNP+ Ceará no SAE Hospital São José, em Fortaleza. Realizada em 26 de maio de 2026 pelas educadoras sociais Orleanda Gomes e Almerinda Oliveira, a atividade reuniu usuários do serviço em um espaço de acolhimento entre pares, informação e compartilhamento de experiências sobre viver e envelhecer com HIV/AIDS.
A atividade teve início com a apresentação institucional da RNP+ Ceará e das ações desenvolvidas pela organização, destacando seu compromisso com a promoção da saúde, a defesa dos direitos humanos e o enfrentamento ao estigma e à discriminação relacionados ao HIV/AIDS. Também foram distribuídas cartilhas informativas aos participantes.
Quatro décadas de avanços e desafios
Um dos temas centrais da roda de conversa foi a passagem dos 45 anos da descoberta da AIDS. O momento permitiu uma reflexão sobre os avanços conquistados ao longo dessas décadas, especialmente no acesso ao tratamento antirretroviral, no aumento da expectativa e da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA) e na ampliação das estratégias de prevenção. As educadoras reforçaram ainda a importância da adesão ao tratamento, fundamental para a manutenção da saúde, do bem-estar e para a prevenção da transmissão do vírus.
Informação também é prevenção
A prevenção combinada também esteve entre os assuntos abordados. Além da importância do uso dos preservativos, os participantes receberam orientações sobre métodos eficazes de prevenção ao HIV, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP). As mulheres presentes também receberam informações sobre métodos contraceptivos de longa duração disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), como o Implanon, reforçando a importância do acesso à informação para o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos de forma consciente e segura.
Quando o preconceito vem de quem deveria acolher
Mais do que um espaço educativo, a roda de conversa se transformou em um momento de escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo. Durante o encontro, duas mulheres com mais de 60 anos compartilharam histórias marcadas por violência, preconceito e exclusão social, emocionando os participantes e evidenciando que o estigma ainda é uma realidade presente na vida de muitas PVHA.
Uma das participantes relatou ter adquirido o HIV do marido e ter sido vítima de violência física e sexual durante anos. Apesar de ter sido diretamente afetada pela situação, foi injustamente responsabilizada pela família do companheiro pela transmissão do vírus. Após a morte do esposo, segue em tratamento e convivendo com profundas marcas emocionais. Ela também revelou ter sido abandonada por familiares que, movidos pelo medo e pela desinformação, optaram pelo afastamento em vez do acolhimento.
Outra usuária compartilhou experiências frequentes de discriminação dentro do próprio ambiente familiar e em seu círculo de convivência. Embora demonstre força e resiliência diante das situações vivenciadas, seu relato evidenciou o impacto emocional causado por atitudes preconceituosas, especialmente quando partem de pessoas próximas, que deveriam representar apoio e proteção.
O estigma adoece
Os depoimentos demonstraram que, apesar dos avanços científicos e das conquistas acumuladas ao longo de mais de quatro décadas de enfrentamento da epidemia, a desinformação sobre HIV/AIDS ainda persiste. As histórias compartilhadas também evidenciaram como fatores sociais, econômicos e culturais podem ampliar as vulnerabilidades enfrentadas por pessoas vivendo com o vírus.
Nesse contexto, iniciativas como as rodas de conversa promovidas pela RNP+ Ceará cumprem um papel fundamental ao levar informação de qualidade, promover acolhimento entre pares, fortalecer o protagonismo das PVHA e contribuir para a garantia de direitos.
Combater o preconceito também é cuidar da saúde
Ao final da atividade, ficou evidente que o preconceito, a exclusão e o isolamento social continuam sendo fatores que comprometem a saúde e a qualidade de vida das PVHA. Combater o estigma, ampliar as ações educativas e fortalecer as redes de apoio seguem sendo desafios urgentes e indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e comprometida com a dignidade humana.
Projeto da RNP+ Ceará
Apoio: Opas | Dathi
Matéria e publicação: Vanessa Campos (@soroposidhiva)




