
Ao receber uma cartilha informativa, uma usuária do SAE ambulatório do Hospital São José preferiu devolvê-la imediatamente. A atitude silenciosa revelou um sentimento ainda presente para muitas pessoas: o medo da exposição quando o assunto é HIV/AIDS. A situação aconteceu durante uma roda de conversa realizada no dia 26 de março de 2026 pelas educadoras sociais Orleanda Gomes e Almerinda Oliveira, integrantes do projeto da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids no Ceará (RNP+ CE), em parceria com o Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi).
A atividade teve como objetivo promover diálogo, orientação e troca de informações sobre prevenção, tratamento e cuidados em saúde. Durante o encontro, foram distribuídas cartilhas educativas e insumos de prevenção aos usuários presentes no serviço.
Respeito ao tempo de cada pessoa
Durante a roda de conversa, foi possível perceber diferentes formas de participação. Algumas pessoas se envolveram diretamente no diálogo, fazendo perguntas e compartilhando experiências. Outras preferiram apenas ouvir.
Situações como essas fazem parte do processo de acolhimento. Em determinado momento, uma mulher que recebeu a cartilha educativa decidiu devolvê-la logo após ler o título. Seu esposo, que demonstrava interesse em ler o material, também acabou devolvendo quando foi solicitado que fosse registrada uma foto apenas das mãos segurando a cartilha. O casal preferiu não participar da imagem e pediu desculpas.
A decisão foi respeitada pelas educadoras, que lembram que o cuidado também passa por compreender os limites e o tempo de cada pessoa.
“Em espaços de diálogo sobre HIV/AIDS, falar é importante — mas respeitar quem ainda não consegue falar também é parte do cuidado.”
O casal também optou por não assinar a lista de presença da atividade, mesmo após a explicação de que não haveria qualquer exposição pública. Situações como essa evidenciam o quanto o medo e a insegurança relacionados ao estigma ainda estão presentes para muitas pessoas que vivem ou convivem com o HIV/AIDS.
Interesse em ampliar o diálogo
Apesar das resistências que ainda aparecem, a atividade também gerou aproximações importantes. Durante o encontro, as educadoras conversaram com Naira Nogueira, pessoa que vive com HIV e possui atuação pública na área.
Ela demonstrou interesse em conhecer melhor o trabalho da organização e fez um convite para que atividades semelhantes sejam realizadas no município de Baturité.
Segundo Naira, ainda há pouca mobilização local sobre temas como infecções sexualmente transmissíveis e HIV/AIDS.
Informação também sobre outras infecções
Outro momento da conversa surgiu a partir do relato de um casal que estava no hospital investigando um possível caso de citomegalovírus (CMV) em seu bebê. De acordo com a mãe da criança, nenhum dos dois possui diagnóstico de HIV. Durante a roda de conversa, foram compartilhadas informações sobre o vírus, que pode ser transmitido pelo contato direto com secreções corporais, como saliva, urina, sangue, lágrimas e também por relações sexuais.

Entre os sintomas mais comuns estão: febre, cansaço, dor de garganta, aumento dos gânglios e dores musculares. Em gestantes, a infecção pode ser transmitida ao feto, caracterizando a infecção congênita, que pode causar complicações como hidrocefalia, perda auditiva e atraso no desenvolvimento do bebê.
Momentos de diálogo como esse mostram que as rodas de conversa também funcionam como espaços de escuta, aprendizado coletivo e esclarecimento de dúvidas sobre diferentes temas relacionados à saúde.
Projeto da RNP+ Ceará
Apoio: Opas | Dathi
Matéria e publicação: Vanessa Campos (@soroposidhiva)




